sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Malheiros já estava condenado

Imagem retirada de Uma Página Numa Rede Social
Já faz quase um mês que José Vítor Malheiros anunciou numa crónica e nas redes sociais que iria abandonar as funções de colunista no jornal Público. Como bem se recordam, a saída deu-se após a chegada de David Dinis, marcadamente de direita e fundador do Observador, à direção do jornal.

Desde que Dinis chegou, temos assistido a uma completa observadorização do Público: dirigido por um indivíduo de direita e que fundou um jornal de direita, o Público torna-se cada vez mais um jornal de direita. Até ao momento, ele já dispensou o contributo de três pessoas que tinham uma relação de anos com o Público. Todas elas de esquerda. No entanto, acho que o caso de Vítor Malheiros (que foi, aliás, um dos fundadores do Público) merece especial destaque.

Em agosto, JVM escreveu no Público um texto chamado "O jornalismo tem razões para se arrepender todos os dias", que foi amplamente divulgado, atingiu as 3600 partilhas e causou incómodo entre a direita, como se pode verificar pela reação negativa ao texto em vários blogs de direita tal como o Insurgente. Fica aqui um excerto:

«Imaginem que o jornal online Observador, em vez de ser um órgão de propaganda da direita neoliberal, criado e financiado por empresários conservadores empenhados em impor na esfera política e em defender no espaço público uma agenda de privatização de serviços públicos, desregulação económica, liberalização do mercado de trabalho, destruição de direitos sociais e demonização do Estado, fosse um projecto criado e financiado por pessoas ligadas à esquerda, empenhadas em difundir um ideário de combate às desigualdades e à injustiça social e em noticiar a actualidade a partir de um ponto de vista socialmente empenhado e intelectualmente independente dos poderes vigentes. 

É evidente que, nessas circunstâncias, não veríamos um elemento do Observador a ocupar um lugar cativo nos painéis de comentadores da RTP e, se por acaso esse jornal fosse alguma vez citado por outros órgãos de comunicação social, seria identificado como “o jornal de esquerda Observador” ou “o jornal Observador, ligado aos meios da esquerda radical” e os jornalistas que assim o identificassem considerariam estar a fazer uma descrição não só objectiva mas necessária da fonte em causa.

Porque é que isso não acontece, simetricamente, e pelas mesmas razões, com o actual jornal Observador e porque é que este não é sempre apresentado como “o jornal de direita Observador” ou “o jornal Observador, ligado aos meios da direita radical”»

Vamos então fazer a reconstituição dos factos: em agosto de 2016, JVM publica este texto, em que critica fortemente o Observador e o acusa de ser um órgão de propaganda da direita neoliberal. Em outubro, David Dinis chega à direção do Público. Em janeiro, JVM anuncia que foi dispensado (e ainda em janeiro, Alexandra Lucas Coelho e Paulo Moura anunciam o mesmo nas redes sociais).

Não há coincidências. JVM "pagou" por escrever este tipo de textos. A partir do momento em que David Dinis chegou ao Público, era lógico que Malheiros era uma ameaça a abater o mais rapidamente possível, o que infelizmente veio a suceder.

David Dinis é claramente uma espécie de líder deste processo de direitização da comunicação social portuguesa. Depois de ajudar a fundar o Observador, jornal que veio reforçar claramente a preponderância da direita na imprensa nacional, está a transformar o Público num jornal de direita. Nem que para isso tenha de limitar a liberdade de expressão de pessoas que não partilham a sua ideologia, dispensando-as e transformando aquele que era talvez o melhor jornal português num jornal mediano.

Mas infelizmente, a prioridade de David Dinis é conseguir a hegemonia da direita na imprensa nacional e não a sua qualidade. Por isso, e tendo em conta os textos que escrevia, Malheiros estava condenado a sair do Público a partir do momento em que David Dinis se tornou diretor do jornal.

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